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Primeiro, convido todos a raciocinarem dentro da seguinte perspectiva mais ampla: o advento do burgo, a cidade moderna como a conhecemos, tem pouco mais de 500 anos. A história da civilização humana tem 5000 ou mais anos. A cidade é um habitat relativamente recente e em constante transformação que determina um novo ecossistema com complexidade nunca antes imaginada. A criança que nasce hoje tem à sua frente inúmeros desafios: educação, esporte, alimentação correta, equilíbrio entre vidas familiar e profissional, violência urbana, álcool, drogas, consumo desenfreado, burocracia, colesterol, pressão alta, dieta, poluição, etc. Viver é complicado, o ensino formal fornece acesso ao conhecimento básico e aos rudimentos de uma profissão. Quem ensina a viver? Os Pais? Os professores? A vida? Setenta por cento da sociedade brasileira vive hoje em cidades, parece-me que a necessidade de uma nova disciplina que vou chamar de ecologia urbana é fundamental. Como sobreviver e ser feliz na cidade?
Para responder uma pergunta tão complexa, é preciso adotar um ponto de partida propositadamente mais restrito, que então posteriormente deve ser ampliado. Nós da ANJOTI decidimos partir da dependência comportamental. Sua irmã mais famosa, a dependência química recebe generosa atenção dos meios de comunicação, mas o jogo de azar, as compras, o sexo e a comida ficaram por assim dizer como primos pobres, apesar da sua expansão ter tudo a ver com a transformação do habitat social que apontamos acima. Infelizmente a desinformação é a regra e o principal algoz de quem sofre de uma dependência comportamental. Isto posto, os objetivos fundamentais da ANJOTI são os seguintes: 1) Educar os profissionais de saúde: recentemente um colega me procurou estarrecido. Uma senhora de 70 anos de idade o procurou para fazer uma cirurgia de ponte de safena. Durante a recuperação cirúrgica o filho perguntou-lhe se sua mãe deveria continuar jogando bingo, pois lhe parecia que ela ficava muito estressada quando jogava. “Deixe-a divertir-se” foi sua resposta. Trinta dias depois, ele foi chamado a um pronto-socorro para fazer um atestado de óbito para sua paciente. Ela desfaleceu sobre uma máquina de vídeo-bingo na qual jogava por mais de três horas. Foi esforço demasiado para seu coração. Não há culpados óbvios numa história como essa, a não ser a desinformação. Precisamos informar todos os profissionais de saúde, incluindo todas as especialidades médicas, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, etc. Se todo profissional de saúde é instruído a perguntar se seu paciente bebe ou fuma, por que não perguntar se ele joga com freqüência? Esses prestadores de serviço precisam saber da existência da dependência comportamental, saber identificá-la e finalmente saber para onde encaminhar um paciente com este tipo de problema. 2) Educar a população: se qualquer um de vocês sair à rua e flagrar um adulto bebendo cachaça às 8:30 da manhã certamente ficará escandalizado, ou pelo menos preocupado, pior ainda se for um adolescente. Mas aquele cara jogando silenciosamente no fundo do mesmo bar, olhos fixos na tela do caça-níquel passa relativamente despercebido, mesmo se for um adolescente. A geração nascida nos últimos 10 anos tem características peculiares. Para eles informática, eletrônica e jogos de azar existem desde o dia em que nasceram. Eles são expostos a tudo isso sem restrições. O futuro preocupa, as estatísticas mais pessimistas falam em 6% de adolescentes que abusam de jogos de azar. Se estes 6% entrarem na vida adulta com a marca do jogo compulsivo será um problema com impacto inevitável na vida social e financeira do país. Mas não precisa ser assim, neste caso a informação é a grande arma. A população precisa saber: JOGO DE AZAR PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA E NÃO É PERMITIDO PARA MENORES DE 18 ANOS. 3) Promoção do consumo responsável: é neste ponto em que a parceria com o setor privado é mais importante. Jogos de azar, videogames, compras, comida e sexo na sociedade moderna são bens de consumo, ou prestação de serviços oferecidos ao público consumidor. A sociedade aborda cada um de uma forma diferente de acordo com as nuances da cultura, mas não é realista negar a existência de uma atividade econômica robusta por trás de cada um desses setores. Nossa preocupação não é reprimir ou estimular essas atividades, mas alertar que um efeito colateral das atividades e produtos orientados ao prazer e ao desejo pode ser a perda de controle e a dependência, um efeito indesejado por todos, inclusive por aquele que presta o serviço. Ter um cliente fiel que consome sem restrições pode parecer maravilhoso, mas apenas superficialmente, pois ele está fadado ao esgotamento emocional e financeiro. Bancos, financeiras e lojas que vendem a crédito poderiam contar com um público mais fiel e constante se eles auxiliassem o cliente a fazer escolhas racionais dentro de sua realidade orçamentária. Quanto o comércio gasta em sistemas de checagem e controle de crédito? Não estamos aqui para distribuir juízos morais, cabe à sociedade e não a ANJOTI decidir que serviços e produtos proibir, tolerar e regulamentar. À ANJOTI cabe apontar os dispositivos pelos quais a compulsividade pode ser evitada. Prevenir é melhor que remediar, que o diga a sociedade norte-americana. A depressão econômica americana que lançou todos numa crise financeira mundial tem suas raízes na cessão indiscriminada de crédito para estimular um consumo irresponsável causando a insolvência de grande parte da população. 4) Promoção da felicidade, bem estar e qualidade de vida: este último objetivo resume os ideais expressos acima e vai além deles. O bem estar só se estabelece se fontes de desequilíbrio como as compulsões são dirimidas, contudo somente o controle de sintomas negativos não basta para promover qualidade de vida. Reduzir a tristeza de alguém, apenas o faz menos triste, não significa que automaticamente esta pessoa tornou-se mais feliz. Os profissionais de saúde mental têm focado historicamente sua atenção nos aspectos negativos da experiência humana e na sua redução: ansiedade, angústia, tristeza, medo, raiva, etc. Pouco se sabe sobre a promoção da felicidade, serenidade, harmonia, equilíbrio, entusiasmo, autoconfiança e outros sentimentos positivos. Contudo, é evidente a associação deles com a qualidade de vida. A consolidação dos resultados de um tratamento ou de uma campanha de prevenção só é assegurada se for alicerçada em um estilo de vida gratificante que reforce comportamentos saudáveis. Por isso que a missão da ANJOTI é principalmente investigar e promover práticas que favoreçam o equilíbrio e a qualidade de vida e você leitor é desde já um querido parceiro nesta empreitada. Hermano Tavares Presidente |